Acende mais um cigarro, irmãoInventa alguma paz interior
Esconde essas sombras no teu olhar
Tenta mexer-te com mais vigor.
Vivemos no tempo dos assassinos, tempo de todos os hinos, e ouvimos dobrar os sinos, quem mais jura é quem mais mente. Vou arquitectar destinos, sou praticamente demente.
É vergonhoso e desumano da minha parte publicar, no mesmo dia, dois posts sobre figuras tão antagónicas como são Almada Negreiros e... e... coiso... (Carlos Castro). Sinto-me mal por tê-lo feito, mas as circunstâncias da vida assim o ditaram.Se eu fosse cego amava toda a gente.
Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gémea que nasceu sem vida, e amo-a a fantaziá-la viva na minha idade.
Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde moras, dize se vives ou se já nasceste.
Eu amo aquela mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longíssimos.
Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.
Eu amo aquelas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.
Eu amo os cemitérios — as lagens são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos floridos virgens nuas, mulheres belas rindo-se para mim.
Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a Lua do lado que eu nunca vi.
Se eu fosse cego amava toda a gente.
"Tenho medo do liricismo que voltei a sentir, aquele mesmo liricismo que julguei ter perdido nos cantos obscuros de um peito cansado que gostou muito e sofreu. Nunca deixarei a alma estar totalmente presa a objectivos concretizáveis. Quero o sonhar, deixas-me? Pensarei sempre mais longe. Terei sempre que carregar utopias e sonhos em mim. Não vou viver nunca sem sonhar e é por isso que ainda aqui estou. Porque gosto sempre de acreditar até chocar com a realidade de perto e perceber se hei-de ou não continuar."
De sílabas de letras de fonemas
- Ela saiu, não sorriu, mal me olhou, mas deixou ficar
Orfeu rebelde, canto como sou:
Is this the real life?
Não sou nada.
Jura que não vais ter uma aventura
Esvaziaram de todo a cova em que dormiste
Fiquei louco, fiquei tonto,
A miséria do meu ser,
Vou andando por aíAlém-tédio
Nada me expira já, nada me vive
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.
Como eu quisera, enfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.
Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.
Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!
Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.
E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...
Mário de Sá-Carneiro