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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A Casa da Minha Avó

Estou um bocadinho farto das lutas da Leopoldina, das danças da Popota, da música do Pingo Doce, dos Pais Natal nas varandas, das palhas do Menino Jesus, das mensagens de telemóvel, do Natal dos Hospitais, do Bolo Rei, do Cavaco Silva, da Manuela Ferreira Leite e de tudo o que esteja sempre a piscar e me provoque ataques de epilepsia.

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Não é esse o significado que dou ao Natal. O Natal, acima de qualquer religião ou playstation, significa Família. Portanto, num rasgo de lamechice, mas também de profundo sentimento e saudade, decidi partilhar convosco um texto que fiz sobre a Casa da Avó.

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A CASA DA MINHA AVÓ

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Tem quatro paredes, um telhado e mil recordações. Lá fora, um caminho de terra segue para a mata que toca com as pontas do verde nos muros da casa. De um lado, um terreno de cultivo com árvores de fruto e legumes por nascer. Do outro lado, um monte de areia que sobe pelo muro do galinheiro. Um portão vermelho de ferro, um canteiro de flores e vinte e oito janelinhas ao longo da parede de entrada. Cá dentro, duas bicicletas encostam-se à parede da Casa dos Sacos - um parque de diversões de velharias: balanças, caixotes, baldes, cadeiras, mesas, vasos, candeeiros e sacos, muitos sacos. O pátio de pedra desce ligeiramente em direcção ao poço de água - sempre esteve tapado, afinal, de onde poderia eu roubar ameixas daquela árvore? Ao lado do poço, uma porta com uma carpintaria lá dentro e ainda uma garrafeira dezassete degraus abaixo. O chão está frio - sempre esteve frio - e a corda que pendura a roupa ainda é a mesma. A roupa é que não. A minha avó agora apenas existe nas peças de dominó escondidas no armário - na terceira prateleira do lado esquerdo, ao fundo, debaixo dos casacos e atrás das camisolas de lã -, nos blocos de papel debaixo do telefone, nas bolachas Maria com manteiga, na ponta do sofá junto à lareira, nas fotografias penduradas ao lado da porta do quarto de hóspedes. E, claro, na máquina de costura junto à televisão. Ao fundo do corredor, a casa de banho. Pequenina. A mesma madeira do chão leva a um quarto, à cozinha e a uma sala utilizada apenas em dias de festa. Tudo continua na mesma. As coisas não mudaram de sítio. Nem as recordações. Tem um telhado e quatro paredes. É a casa da minha avó.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Can he?

Hoje o eleitorado norte-americano irá escolher um novo presidente, Barack Obama ou John McCain. Ainda não escrevi nada no blogue sobre estas eleições e, sinceramente, pouco tenho a dizer que já não tenha sido dito. No entanto, gostaria de seleccionar alguns pontos que me parecem importantes:

- Esta não será uma decisão fácil porque, qualquer que seja o escolhido, não terá nas suas mãos apenas o destino dos Estados Unidos mas, “também”, o destino do mundo.

- Obama parece ser o candidato em melhor posição para ocupar a Casa Branca. Pelo menos, é o que a Comunicação Social transmite.

- Os candidatos têm comprado “espaço” nos meios de comunicação social para poderem divulgar os seus projectos políticos. Haver a possibilidade de comprar “prime times” para fazer propaganda política é uma falha num sistema democrático (o mais consolidado do mundo), no entanto, não é o principal problema. Este acaba por ser o facto de o dinheiro investido em ambas as campanhas ser fornecido por empresas privadas. E, qualquer que seja o vencedor, sê-lo-á, em parte, graças aos dólares da Microsoft ou da Hensley & Company, entre muitas outras. Como “não há almoços grátis”, mais cedo ou mais tarde o Mister President terá de retribuir, com juros, o apoio que lhe foi dado. O que, numa democracia, não é nada aconselhável.

- Se a Europa pudesse votar, aliás, se o Mundo pudesse votar, Obama venceria com larga vantagem. No entanto, os norte-americanos têm um self muito próprio o que, sinceramente, me provoca algum receio.

- Os norte-americanos pretos ainda não são considerados totalmente norte-americanos, mas sim afro-americanos. Esta designação pode ser fatal na altura de ir às urnas, levando os norte-americanos a “xenofobizar” o voto, escolhendo um “não-preto”. Infelizmente, a realidade é esta e o racismo ainda está muito presente nos Estados Unidos. Por outro lado, não entendo tanto alarido de um preto ser Presidente dos Estados Unidos. Se for pela cor da pele, os norte-americanos puros tinham a pele vermelha, e não branca.

- Quanto a John McCain irá carregar, quer queira quer não, o legado de George W. Bush, o que seguramente não será fonte de grande admiração. Lutou no Vietname, foi herói de guerra e tem uma vasta experiência política. Porém, o seu aspecto velho, acabado e prestes a ter um AVC não recebe grande simpatia por parte do “eleitorado” europeu.


- Nós europeus olhamos para Barack Obama como uma espécie de salvador que, finalmente, nos libertará do cheiro a pólvora. É inteligente, bonito, simpático, tem carisma, postura e incorpora literalmente um espírito de mudança. As questões do Iraque, Afeganistão e o conflito Israelo-árabe são as que mais nos preocupam. Nestes casos específicos, Obama recebe o nosso apoio. Porém, a nível interno tudo se torna diferente. Não porque passemos o voto para McCain, mas sim porque não sabemos muito bem o que cada um defende. Melhor dizendo, sabemos, mas não estamos dentro do país para saber quais as suas verdadeiras necessidades.

domingo, 31 de agosto de 2008

Voltar


Voltar. A própria palavra transmite uma sensação de viagem, de vazio, de mergulhar até ao fundo do poço e regressar à tona em menos dez segundos. Levantar a cabeça, passar os dedos pelos olhos, esfregar o nariz e puxar o cabelo para trás. Lufada de ar fresco. Ar puro novamente. O “v” tem a forma de vale, de escorregar, cair, e saltar rapidamente rumo às estrelas. Tal e qual um adolescente numa pista de skate, mas sem capacete nem qualquer outro tipo de protecção. Só uma mera tábua de madeira com umas rodas desengonçadas, como os carrinhos de rolamentos na descida em frente à minha casa. Inconstante, difícil, perigoso. Cai-se, esmurram-se os joelhos, atira-se terra para estancar o sangue, e está tudo óptimo. Volta-se.

Voltar é uma descarga eléctrica que nos escorrega pelo peito, desce até à barriga e sobe novamente a alta velocidade, dando-nos um valente murro nos queixos. Daí a palavra ser um “volt” com “ar”, a tal lufada de oxigénio que nos sopra na cara. Fechamos os olhos, os cabelos voam e sentimo-nos o Joker no carro da polícia de Gotham City. Mesmo com as cicatrizes, aquelas pedras que se metem nas rodas do nosso carrinho, aquelas memórias que nos fazem adiar o regresso. Adiar o “voltar”. Mas voltamos, sempre! Há sempre um regresso, com ou sem autorização, acabamos por voltar ao nosso baloiço, à nossa escola, ao campo de futebol que substituía as aulas de Físico-Química… Voltamos.

A forma mais corriqueira e mais incorrecta de voltar é camuflada por letras macias, leves… Lembrar. Lembrar é voltar sem “v”, é regressar em pezinhos de lã. É pedir licença para entrar, tirar os sapatos, calçar umas pantufas e andar como o Bugs Bunny quando se quer esconder do caçador. Ao lembrarmos, estamos a exercitar a nossa memória, é certo, mas estamos a estragar o nosso coração. É bom lembrar, faz bem, mas dói e não se recomenda. Por muito que as memórias sejam boas. Obrigam-nos a ir às nossas gavetas mentais, forçar a entrada, não encontrar a chave, procurá-la debaixo dos tapetes, metê-la na fechadura, não dar e ter de arranjar uma outra forma para arrombar a maldita gaveta. Voltar é uma lembrança em presença. Não precisamos de procurar a chave porque, quando voltamos temos comando, carregamos no botão e o portão abre-se automaticamente. Não saímos do carro, mesmo que esteja a chover. E é tão bom, não nos molhamos, mesmo que a chuva saiba a sal.

Voltar é dar um par de estalos à memória e fazê-la acordar. Nunca se volta fisicamente através de lembranças. Por isso estão disfarçadas. E escrevem-se com “l”, de “lamechas”, de “lulu”, de “lápis”… Pegamos numa borracha e lá se vão as lembranças. Por isso voltemos! É bom voltar aos sítios onde demos o nosso primeiro beijo, àqueles onde passámos a maior vergonha da nossa vida… Voltar é cheirar, é agarrar, é trincar! Lembrar é todo um malabarismo mental para criar o que já existe. Lembrar é construir um castelo de cartas no topo de um arranha-céus. Voltar é construir as cartas. E o arranha-céus. A memória atraiçoa. Dá-nos uma facada nas costas. O regresso dá-nos vida, ou mata-nos. Pisamos o chão e estamos, somos, existimos. A lembrança imagina, probabiliza, supõe. E Portugal precisa de voltar. Não àquilo que foi, mas àquilo que teve. Não no sentido de recuperar territórios físicos, mas sim de conhecer as pedras que pisou. Voltar onde esteve, onde não esteve, inventar novos mundos, novos regressos, novas viagens. Ir, regressar, viver e voltar. Lembrar não, dói. Voltar sim, dói ainda mais. Talvez seja por isso que agora não me lembro de mais nada para escrever.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

“Sabe mais do que uma professora primária que para saber as coisas vai precisar de muitos muitos anos?”

No episódio de 30 de Julho 2008 do “Sabe mais do que um miúdo de dez anos?”, Jorge Gabriel recebeu alguns concorrentes, entre eles, uma rapariga assenhorada que prometia chegar ao topo. Não que ela tivesse afirmado tal coisa, mas o seu curriculum falava por si: professora primária e formadora de professores.

O jogo, esse sim, prometia visto que nele os concorrentes apenas têm de responder a questões retiradas do programa oficial do ensino básico.

Não me recordo bem da ordem das questões, até porque não tenho o hábito de estar a ver televisão com um bloco de notas e uma caneta, mas lembro-me de algumas das perguntas colocadas e, acima de tudo, das respostas dadas pela senhora professora.

À questão “Quantos tempos naturais têm os verbos?”, a concorrente (PROFESSORA PRIMÁRIA!!!) pensa, coça a cabeleira loura, olha o vazio, mexe nervosamente as mãos, olha novamente o Jorge Gabriel e decide espreitar (uma das três ajudas que podem ser utilizadas). Sorte que o rapaz (ou rapariga, não me lembro) sabia a resposta a uma pergunta tão básica como “Qual é o teu nome?” e respondeu: “Três tempos naturais: passado, presente e futuro.”

Ok, até aqui até pode ter sido o sistema nervoso a falar pela concorrente. Mas parece que, ou o seu sistema é tão tagarela como a Júlia Pinheiro, ou a senhora PROFESSORA não sabia falar e tinha de pedir ajuda. Toda a gente sabe que o vértice do sinal de “maior” está virado para a esquerda. Bem como o Hitler foi o terceiro rei de Portugal e a Nossa Senhora de Fátima apareceu mesmo aos três pastorinhos. Tudo verdades incontornáveis da história mundial. Após uma pormenorizada descrição no quadro (se é que era necessária!), Jorge Gabriel lá conseguiu inclinar a senhora PROFESSORA para a resposta correcta: o vértice do sinal de “maior” está virado para a direita. Tcharan! Bravo! Bis! Bis!

A prestação da concorrente ia de vento em popa (tal como a caravela de Salazar em direcção às Caraíbas em 1839 – de certeza que, por este andar, a senhora PROFESSORA anuiria com a cabeça de forma assertiva). Chegava, agora, a vez de colocar à prova os seus conhecimentos matemáticos. Talvez neste campo fosse boa docente. Não é que uma professora PRIMÁRIA precise de ter um conhecimento aprofundado de todas as matérias que lecciona, mas se calhar até daria jeito... “0,3 Hectolitros são 3 Litros”. Pimba! Vai buscar inventor desta unidade de medição! Mais uma vez, Jorge Gabriel (que, de facto, até foi um anjo para a senhora) a conduziu à resposta correcta.

“Qual é a matéria-prima da indústria vidreira?” foi a questão seguinte. Mal a frase interrogativa surgiu no quadro, a concorrente carregou no botão e prontificou-se a responder. Até que enfim uma pergunta à qual sei responder. Vou mostrar a todos que sou uma excelente professora e que não sou nada… burra. Foi este o seu pensamento, desconfio. “É o vidro!”, responde triunfante, com um sorriso rasgado de orelha a orelha.

- Oh meu Deus, por que razão me fazes presenciar cenas destas? Porquê? Porquê? Terei sido um ser demoníaco numa outra vida e agora, de forma a redimir-me de todos os pecados, me obrigas a abrir os olhos a esta praga avassaladora? Salvai-me Senhor, salvai-me! -

A resposta era, obviamente, “areia”, a matéria-prima da indústria vidreira e, quem sabe, da indústria cerebral desta professora. A confusão foi “matéria-prima” com “produto” ou simplesmente “matéria”, mas a concorrente também é professora primária, e não apenas professora. Sendo primária, provavelmente se dedique apenas às coisas básicas, às coisas primárias da vida. Mas “pensar” talvez não seja uma delas.

Finalmente (ou não, porque um concurso é para uma pessoa se divertir, e já não me divertia tanto desde o Sporting-3 Benfica-6 – já lá vão uns anitos e, por isso, deveriam deixar o jogo continuar para bem do meu bem-estar) chega a pergunta em que a senhora PROFESSORA tropeça, cai e não tem ninguém que a possa acudir. Tudo bem que a pergunta não era muito fácil, mas também não era difícil. Ainda para mais quando a resposta está mesmo debaixo do nosso nariz, literalmente! “Quantos pares de costelas tem o ser humano?”. A concorrente não soube responder e decidiu utilizar uma outra ajuda – “copiar”. Porém, o rapaz havia respondido 36 quando a resposta era 12.

Eu não tenho nada contra as mulheres – antes pelo contrário! – mas, em relação a esta, bem que Deus podia estar quietinho e não tirar nenhuma costela a Adão para a fazer.

Tudo bem que criticar é muito fácil e responder sentadinho no meu sofá é simples, cómodo e desprovido de “mãos trémulas”, mas eu não parto a aventura de ir à televisão porque tenho consciência das minhas limitações (e não são poucas, vocês podem confirmar!). Agora, uma pessoa que é professora primária, dá formação a professores e se inscreve num concurso onde a matéria testada é retirada do programa do ensino básico, deve ter consciência de que o nível de exigência é elevado. Posto isto, não tem o direito de não saber responder a perguntas básicas como aquelas que lhe foram colocadas. E, não só se envergonhou a ela própria, como envergonhou uma classe que em muito pouco se lhe assemelha.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Na caixa torácica, entre os pulmões

Suplico-te para que voltes. Regressa à tua pintura, ao cheiro que nunca deixaste, aos lençóis que nunca mandei lavar. Traz tudo contigo. Os livros, os brincos, as roupas, os sapatos... Sinto saudade do cheiro da nossa caixinha de música. Cheirava a malmequer misturado com Beethoven. E o luar mantém-se para ti. Dá-te luz para que não tropeces nas caixas que deixo no corredor. Já contava com a tua chegada há muito tempo. Traz tudo contigo. Até mesmo a mão que agora seguras, o corpo que agora desejas, os lábios que agora mordiscas. Se te lembrares de mim, basta uma rosa junto à fotografia. Não foi de ciúme. Não foi de cobardia. Foi de amor.

Texto: André Pereira
Imagem: José Meneses

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Greve dos camionistas

De há uns dias para cá que tenho assistido a uma greve prolongada dos camionistas portugueses e espanhóis, o que sinceramente não compreendo. Se há alguém que deveria fazer greve, deveriam ser os próprios camiões e não os camionistas. Aguentar com um brutamontes de manga cava, palito nos dentes, mau-hálito, chapéu do Benfica e posters misteriosamente usados da Pamela Anderson não é para todos os veículos.

Muitos se queixam dos tunings, que mais parecem umas discotecas ambulantes, em altos decibéis e com luzes néon azuis a iluminar a estrada numa noite escura, ou até mesmo num dia claro. E os camiões, esses veículos desprezados pela sociedade? Enfim, estes tractores (sim, foi assim que aprendi quando tirei a carta) não são apenas discotecas, mas autênticas boites. Antes do famoso “Avião”, já o camião espalhava alegria e prazer pelos quatro cantos do mundo (nunca percebi esta expressão, até porque o mundo é redondo. Onde estão os cantos numa coisa redonda, onde?!?!?!).

Será que todos os camiões são comprados em França? Se não, qual a razão para serem “camions”? E os camionistas? Também haverá um Joôn em vez de João? E o Quim Barreiros, toca acordeão ou acordion? Questões dignas de um Platôn, quero dizer, Platão.

Mas os camionistas são uma espécie curiosa. Enquanto os restantes cidadãos possuem bilhete de identidade eles têm matrícula (de preferência no tablier).

Retomando ao tema da greve, não sei a verdadeira razão destes indivíduos. Será que já se cansaram de fazer horas ilegais ao volante e agora querem cumprir a lei? Será que vão deixar de transportar mais do que aquilo que deveriam não estragando, assim, as estradas? Será que vão deixar de exceder os limites de velocidade diminuindo a sinistralidade rodoviária? Será que estão contra a sua própria conduta arrogante de quem manda no asfalto?

Ah, dizem-me que é o preço dos combustíveis. Assim tudo bem, concordo. Aliás, qualquer um de nós tem o direito a fazer greve, ainda para mais quando se trata do constante aumento do preço dos combustíveis. Mas, proibir os outros de trabalhar? Obrigar todos os trabalhadores a fazerem greve? Algo aqui não bate certo. Aqui já não se trata de defender os seus direitos, mas sim de “pensar ter o direito de defender os direitos dos outros”. E esta perspectiva vai contra aquilo que supostamente deveriam defender: direitos iguais para todos.

Ora, eu tenho o direito de escolha entre fazer ou não fazer greve. Eu, que até cumpro os limites de velocidade, não faço aldrabices no meu contador de quilómetros, nem tenho a colecção completa do Luís Filipe Reis em cassete, opto por não fazer greve. É verdade que não conduzo nenhum camião chassis, mas, não fosse a minha boa conduta ao volante, poderia conduzir.


Imagem: Direitos Reservados

sábado, 26 de abril de 2008

O que o 25 abriu...

Cheguei agora a casa. Provavelmente muitos dirão que não são horas para chegar a casa. Amanhã, talvez, terei de me levantar cedo e, não só chego tarde a casa, como ainda vou escrever um texto para colocar no meu blogue. Não cabe na cabeça de ninguém. Muito menos na minha, de tão pequena que é para ser ocupada com coisas triviais como esta: chegar ou não chegar tarde a casa. Um pensamento digno de Hamlet, talvez. Porém, a personagem de Shakespeare que mais se adapta ao tema que pretendo abordar é Otelo. Contrapondo todos os que me possam criticar, haverá, certamente, muita gente que se regozija pensando que um jovem como eu foi festejar o grandioso dia que foi o 25 de Abril de 1974.

Perdoem a minha sinceridade e a displicência com que fui apenas beber um copo com um amigo, sem sequer levar um cravo no bolso do casaco. E não, não coloquei nenhum cd do Zeca Afonso no carro. Muito menos do Manuel Freire, do Fernando Tordo, do Adriano ou do Fausto. Não porque não goste deles, antes pelo contrário! Admiro-os, venero-os como músicos e cantores que o foram, e alguns deles ainda o são, de um povo enorme e único como o português!

Para quê apenas recordar a “Tourada” do Ary ou a “Grândola” do Zeca no dia 25 de Abril? Ao contrário da esmagadora maioria das pessoas que neste dia cerra o punho e grita liberdade, eu oiço estas músicas nos restantes dias do ano. Tal como oiço Metallica ou Rammstein, também oiço a “Trova do Vento que Passa” e a “Pedra Filosofal”. Mas sim, para quem não sabe e vive apoiado na sua mão esquerda com um poster do Che Guevara no quarto enquanto fuma um ou outro charuto (cubano, de preferência) há outros dias no ano para além dos dias em que há manifestações e daquele que existe entre o dia 24 e o dia 26 de Abril.

No entanto, parece que Portugal pára para recordar este heróico dia. Não estou a criticar esta mobilização dos cravos – nem dos escravos –, esta invasão de chaimites blindadas em todos os meios de comunicação social, longe de mim! Aliás, até concordo com o relembrar de todas estas memórias. O que me preocupa é a forma como estas lembranças são recordadas.

Eu tenho a plena noção histórica daquilo que foi a Revolução dos Cravos. Digo histórica porque, feliz ou infelizmente, não a vivi como os meus pais ou os meus avós a viveram. Não fui um dos combatentes da liberdade que lutou bravamente contra a falta desta durante o regime fascista existente até então.

Mas sempre que se aproxima este dia, lembro-me do Natal. Não que exista alguém que se assemelhe ao Pai Natal e distribua prendinhas por todas as crianças. Quer dizer, talvez o Álvaro Cunhal, que até vestia de vermelho e tudo… Mas é uma mera coincidência. Nesta altura lembro-me da época natalícia porque são sempre as mesmas pessoas a falar na televisão, os mesmos filmes a rodarem em horário nobre, as mesmas músicas a ecoarem-nos nos ouvidos. Eu até gosto de ver o “Sozinho em Casa”, rir-me com o Mr. Bean e ouvir o Jingle Bells, mas chega a uma altura em que cansa.

Há que exaltar os valores atingidos através da Revolução, mas, na minha opinião, esta exaltação contínua só nos encaminha para dentro de nós próprios. Isto é, parece que lembramos com saudade os tempos em que vivíamos “orgulhosamente sós” com Salazar, em que a PIDE nos pegava pelos colarinhos e nos mandava para os calabouços do Tarrafal, em que nos apoiávamos sob a mão protectora do Presidente do Conselho… E que conselhos estas pessoas nos dão a nós, juventude que não sabe o que é viver aprisionada pelos grilhões de um regime? Atiram-nos com documentários a preto e branco e com espectáculos cujas figuras principais são, nem mais nem menos, do que os velhos?

Uma vez mais realço a minha extrema admiração por estes “velhos”, mas o que critico é a forma como o 25 de Abril tem vindo a ser contado aos “novos”. Quem diz o 25 de Abril, diz a política em geral. Ontem, o nosso presidente da República criticou mesmo a forma como os políticos se têm comportado, criando uma espécie de barreira entre a juventude e a política E, do meu ponto de vista, Cavaco Silva tem razão. A confiança depositada nos nossos estadistas tem sido gradualmente destruída pelo trabalho, ou falta dele, que estes têm desenvolvido.

Talvez seja esta a razão de recordarmos tanto o 25 de Abril de 1974. Não porque queremos regressar ao fascismo, mas porque sentimos falta de um ideal forte por que lutar. Encontrámos esse ideal e soubemos lutar por ele, mas… e depois? Tal e qual um jogador que finta todos os jogadores mas depois não sabe como há-de rematar à baliza. E ali fica, eternamente, até que lhe surja uma ideia e a coloque em prática ou então espera que o guarda-redes lhe tire a bola.

Lutámos pela liberdade, derrubámos o regime, gritámos nas ruas, abraçámo-nos… e agora? É este enorme ponto de interrogação que tem incomodado os portugueses. Aliado a muitos outros (por exemplo, será que D. Sebastião ainda nos virá salvar?) a nossa vida baseia-se numa curva sobre um pontinho minúsculo. A curva são as nossas incertezas, o ponto é o que nos falta. Andamos numa constante espiral procurando o porquê de tantos gritos de liberdade e de “povos unidos”. Damos voltas e mais voltas, mas voltamos sempre ao mesmo local.

Hoje em dia, não há um “aproveitamento” real do 25 de Abril. Aconteceu, foi óptimo, foi uma libertação! Nada contra. Mas… como utilizar esta liberdade para nos expandirmos em direcção a outras liberdades? Será que esta pela qual muitos compatriotas nossos deram a vida serviu apenas para podermos recordar constantemente o que se passou? Utilizemos esta liberdade para pensar, para criar, para imaginar, para evoluir!

Vamos dar novas liberdades ao mundo, ou pelo menos a este nosso país cujas pessoas só se sabem queixar do aumento dos impostos e das medidas mais ou menos acertadas de qualquer que seja o governo!

Passe a concordância do predicado com o complemento, a sociedade somos todos, e a liberdade não serve apenas para podermos criticar à vontade com bandeiras vermelhas e rastas mal lavadas. A liberdade serve para andar para a frente, avançar com inteligência, inventar novas formas de vivermos melhor!

Apesar de não ter escrito nada de novo, é essencial que olhemos para a nossa História de uma forma inteligente e astuta. Ok, adquirimos a liberdade, agora vamos utilizá-la! E não continuar, apenas, a cantá-la e a transmiti-la em filmes e programas sem pachorra.

Hoje, é verdade, eu cheguei tarde a casa. Mas há quantos anos anda o nosso país a chegar tarde?


Texto: André Pereira
Imagem: Direitos Reservados

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Jornalismo Ambiental

Vivemos numa era em que os avanços tecnológicos se sucedem de uma forma tão rápida e envolvente como nunca havia acontecido. Esta evolução que o mundo tem sofrido é, seguramente, uma das causas para a tomada de consciência da população do mundo em que vivemos. Se, por um lado, as novas tecnologias nos permitem viver o mundo de uma forma completamente diferente (quase ao estilo de uma realidade virtual matrixiana) por outro, esta inteligência artificial permite-nos ter acesso a informações de todos os tipos. Há um esbater das classes sociais, neste aspecto, ao nível do antigo “elitismo do conhecimento”. Porém, a facilidade de acesso à informação é proporcionalmente acompanhada pela dificuldade em decifrarmos o verdadeiro conhecimento, o que é real do que é apenas acessório ou falacioso.

Neste universo tecnológico incluem-se, obviamente, os órgãos de comunicação social, que têm sofrido constantes alterações não só a nível estrutural como também a nível da pesquisa e divulgação da notícia.

Centrando-me na problemática existente entre os meios de comunicação social e a temática do aquecimento global, eu entendo que todos os intervenientes (Comunicação Social, grandes grupos económicos e ambientalistas) acabam por sair beneficiados. Com a preocupação constante em relação ao aquecimento global, os órgãos de comunicação social fazem o seu trabalho, divulgando a notícia, obtendo lucros com a sua acção. Por sua vez, os grandes grupos económicos especulam os preços, devido à conjectura ambiental que se vive, lucrando também com isso. Por último, os ambientalistas (que pertencem a grandes grupos económicos) também saem beneficiados por verem o “seu” caso em cima da mesa da opinião pública.

Como é óbvio, todos os alarmes e informações que nos são veiculadas pelos órgãos de comunicação social podem ser facilmente manipulados com o intuito de nos transmitir determinada informação. Mas acaba por ser essa a lei do mercado. Tanto acontece com o “aquecimento global” como com o “terrorismo” ou a “saúde”. Ciclicamente, estes temas são debatidos em praça pública com o intuito de “promover a roda”. Não estou a dizer, porém, que não existe o problema do aquecimento global, neste caso específico. Apenas entendo que o ser humano banal não tem acesso à verdadeira informação, ao conhecimento, tendo apenas que acreditar naquilo que ouve, vê ou lê através dos meios de comunicação social. E aqui é que se gera o debate. Por exemplo: os meios de comunicação social nos Estados Unidos relatam temas avassaladoramente diferentes dos tratados pelos meios de comunicação social árabes. Não quero, com isto, optar por uma ou outra forma de divulgar a notícia, mas o problema reside no facto de a “Notícia” ser diferente. Até que ponto o ser humano (de qualquer continente e não só norte-americano/europeu) pode estar consciente do verdadeiro problema e como deve combatê-lo?

Entendo que, por um lado, os órgãos de comunicação social podem tratar o tema do aquecimento global numa perspectiva de preocupação com as suas consequências. Porém, não é de eliminar a probabilidade propagandística exercida pelos mesmos, sujeitando-se aos elevados interesses económicos.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Novos posts no Parque das Letras

Por entre copos
De copos que bebi
Sinto que copos que não são copos
Deixam-me feliz.


O Parque das Letras regressa com dois poemas da autoria de Pedro Pinto e ilustrações de João Abraúl. Nada mais que dois "pedaços de tinta que vagueiam pelo jardim de uma mente qualquer".

domingo, 13 de abril de 2008

Ai eu já pensei?

Este anúncio é algo de fabuloso! Os meus parabéns, não só ao criativo que escolheu esta música nada irritante, como também ao responsável que aprovou esta nova versão da letra.

Ai eu já pensei mandar pintar o céu

Em tom vermelho, p’ra ser original

Na letra original, o tom do céu é azul e não vermelho. Apesar de tudo, concordo com esta alteração! No entanto, quando a Xana (vocalista dos Rádio Macau) continua a letra, a sua ideia em pintar o céu cai por terra. E porquê? “Só depois notei que azul já ele é, houve alguém que teve ideia igual”. Certíssimo!

Ora, a Vânia Fernandes (a rapariga do anúncio) não poderia continuar a música e dizer “só depois notei que vermelho já ele é, houve alguém que teve ideia igual”. Claro que não, o céu não é vermelho… Aliás, mitologicamente, a cor encarnada é associada ao oposto do Céu.

A Vânia, para além de ter vencido o concurso ‘Operação Triunfo’, venceu também o Festival da Canção e vai representar Portugal no Festival da Eurovisão, a realizar na Sérvia, com a música “Senhora do Mar”. Aqui surgem-me outras dúvidas:

- O mar é azul (ok, não é azul, mas é o reflexo da cor do céu). Será que nesta música – “Senhora do Mar” – Vânia se refere a uma senhora num mar… vermelho? Só se a cantora se quer referir a uma amiga de Moisés que fez a travessia do Mar Vermelho juntamente com os seus seguidores hebreus;

- Se a música significar mesmo uma “Senhora do Mar Vermelho”, nada melhor do que cantá-la na Sérvia, uma região já acostumada a esta cor, especialmente quando derramada.

Continuando a análise deste tema modificado pela equipa do Totta Santander,

Eu já sei para onde ir

Ter as contas sob controle
Por mais em conta, fico mesmo aqui
Debaixo do sol.

A menos que a letra tenha sido escrita pelo Ediberto Lima, não entendo a razão por que se coloca um estrangeirismo a meio de um verso – controle?!?!?! A não ser… Isso mesmo! A não ser que seja para rimar com o “sol” do verso final. SOL!!!! Qual Luís XIV, qual quê! Nasceu o sol na letra da banda com nome de uma rádio… Macau! Era mais que óbvio.

No entanto, sempre que vejo este anúncio, surge-me à ideia a seguinte letra:

Ai eu já pensei pegar numa bazuca
E rebentar com as pessoas que fizeram este anúncio até ficar tudo vermelho


Penso que ficava tudo muito mais bonito!

terça-feira, 25 de março de 2008

Vamos à escola

Uma professora foi agredida na escola Carolina Michaëlis, no Porto, após ter retirado o telemóvel a uma aluna dentro da sala de aula. O vídeo da pancadaria foi colocado no Youtube, e conta já com inúmeras visitas e comentários.

Eu não vejo qual é o mal em uma aluna querer dar um enxerto de porrada numa professora. Aliás, até acho bem! Até a Maria de Lurdes Rodrigues já deve ter pensado nisso. Agora, fazer tanto alarido por causa de um telemóvel? Se fosse por um bilhete do Rock in Rio ou por um jantar na Trindade… Agora, por causa de um telemóvel?

Não, agora a sério! Como é óbvio, condeno totalmente a atitude desta menina mimada, parva, estúpida, ignorante e mal-educada! O cerne da questão reside na educação ou, neste caso, na falta dela. Há quem peça mais autoridade para os professores, mais submissão por parte dos alunos… E os pais? Será que estes, em vez de se dedicarem à “crítica governamental” não deveriam dedicar mais tempo aos seus filhos? Talvez lhes pudessem ensinar o significado de palavras simples mas essenciais, como respeito, educação…

Não sou um opinion maker, não movo multidões, nem sequer sei se os meus textos são lidos por muita gente, mas paremos de criticar sempre o governo porque fez isto ou não fez aquilo. A sociedade não é composta apenas por Primeiro-Ministro, Ministra da Educação, Ministra da Saúde... Caso ainda não tenhamos percebido, a sociedade somos todos!

Acho que muitos de nós deveriam voltar à escola para aprender muitas coisas que se foram perdendo. E até podemos aproveitar as novas tecnologias e gravar as aulas num telemóvel. Pode ser que assim não cometamos os mesmos erros.

sexta-feira, 14 de março de 2008

A vida segundo uma luva de Verão - parte II

Júlio era considerado pela Associação de Rádios em Frequência Am (RFA) como o homem mais bonito e atraente do planeta Terra e de Marte. Como único membro da RFA e, por conseguinte, vice-presidente vitalício, mandou construir um muro que separava o seu cabeleireiro da sala de espera, com o objectivo de poder trabalhar sossegado, sem que ninguém o chateasse. Por vezes, lá aparecia um ou outro guedelhudo e barbudo que se manifestava veementemente contra a construção desta divisão ridícula, mas lá tinha de esperar, uma vez que não havia outro cabeleireiro na zona.

Um dia, Fernando Flores, ou Júlio – como bem entenderem –, teve a visita inesperada de um senhor pequenino com um bigode ridículo de meio centímetro. “Quero uma cerveja e duas bifanas!”, gritou o pequeno homem. “Desculpe, mas nós só temos caracóis e pregos no prato”, ripostou Júlio. “Mas eu quero…”, resmungou H. (de Homem – qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência), e começou a chorar que nem um bebé. Com pena, Júlio cedeu-lhe a melhor cadeira do cabeleireiro e fez-lhe um corte de cabelo à Elvis Presley. Ficou tão parecido que H. começou a cantar “Love me tender” para o pente.

Passaram-se dias e mais dias, e H. não abandonava aquela cadeira. Costumava ficar tanto tempo a olhar-se ao espelho que, num dia narcisicamente normal, o seu reflexo aborreceu-se e fugiu para as ilhas gregas.

(to be continued)

André Pereira
Imagem: Direitos Reservados

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

A vida segundo uma luva de Verão

Fernando Flores é conhecido por ter dois cogumelos plantados no nariz. Por essa razão, nunca vai ao cinema à noite com medo de ficar perneta. Os seus amigos tratam-no por Júlio. Já os seus inimigos tratam-no por Júlio. Júlio – já perceberam se sou amigo ou inimigo dele – tem um cabeleireiro que só abre às terças-feiras de manhã, uma vez que nos restantes dias tem de tratar da horta que tem em casa. É um pequeno terreno de 50m2 em forma de Estrela de David.

Todos os dias, Júlio colhe tomates, limões e cassetes de vídeo com o filme “Voando Sobre um Ninho de Cucos”. Por vezes, lá aparece uma cassete com o “Não se Esqueça da sua Escova de Dentes”, apresentado pela Teresa Guilherme, mas rapidamente a entrega à família de tartarugas que mora no 2º esquerdo. Elas agradecem sempre com uma sonata de Bach tocada pela filha mais nova do casal.

Nos dias de festa – em honra da Nossa Senhora dos Números Primos – Júlio e a sua esposa compram lençóis cor-de-laranja e saem à rua mascarados de Batman e Robin. Escusado será dizer quem se veste de quê.

(to be continued)

André Pereira
Imagem: Direitos Reservados

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Diazinho oficialzinho dos namoradinhos

Hoje é o diazinho oficialzinho dos namoradinhos. Todinhos se juntam, trocam mensagenzinhas a dizer que se amam muitinho e que querem ficar juntinhos para todo o semprinho. Está escrito nas entrelinhas de todas estas lamechices. Hoje é o dia dos inhos e das inhas. Beijinho para aqui, queridinha para ali. Eu até gosto destas confissões de amor terminadas com mil asteriscos no final das mensagens, mas tem de ser todos os dias. Sim, tem de ser porque o amor (ou o amorzinho para os adeptos ferrenhos deste dia) não é feito apenas de 24 horas a meio do mês de Fevereiro. O amor, se é que existe, não é mais que olheiras de sono e de choro, copos vazios, camas desfeitas, facas ensanguentadas e dores de barriga. O amor não é feito num dia cujo santo padroeiro é um Valentim. Se fosse mesmo amor, o senhor deveria chamar-se Valente. Deveria ser o dia de São Valente, e não São Valentim.

A partir do momento em que se tem contacto com o amor, a pessoa fica completamente desprotegida para o resto da vida. Qualquer olhar mais demorado numa mesa de café ou um sorriso mais provocador numa loja de roupa atira-nos imediatamente para o chão, sem qualquer cadeira onde nos possamos sentar e, pior que isso, nus, à vista descartada de qualquer transeunte desgovernado. Como o Miguel Esteves Cardoso escreveu, "as pessoas haviam de encontrar o grande amor das suas vidas só quando fossem velhas. É sempre melhor viver antes da felicidade do que depois dela." E é bem verdade, a felicidade só vem atrapalhar a nossa vida. Faz-nos andar com sorrisos parvos o dia todo, aceitar todos os atrasos do autocarro que nos leva para o trabalho todos os dias, compreender todos os problemas de todos os taxistas de todas as cidades, sorrir e dar dois euros a um mendigo que nos roga uma praga qualquer terminada em "Deus Nosso Senhor", etc, etc, etc... A felicidade é uma anestesia que nos alucina de tal forma que não conseguimos encontrar uma rua suja, um empregado das finanças antipático ou um político corrupto.

Por outro lado, viver sem qualquer felicidade também chateia. Nem que seja aquela felicidade de ver o Rui Costa a fintar os 18 jogadores da equipa adversária e marcar um golo de calcanhar. Ou a outra felicidade de dar uma gargalhada de 20 minutos sem ninguém ter contado uma anedota.

São felicidades relativas, ao contrário do amor, que não acontece num só dia e não deve ser relativizado por programas de televisão com balões em forma de coração. O amor é absoluto e impossível de alcançar. Apetece-me mesmo dizer o título de um livro do Miguel Esteves Cardoso, mas não digo. Olhem, fica nas entrelinhas.

André Pereira
Foto: Direitos Reservados

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

O Maior País do Mundo

É verdade que, tendo em conta o título deste texto, me podem acusar de publicidade enganosa. No entanto, verão que tal tem a sua justificação. “Muitos parabéns! Acabou de ser a quinquagésima terceira pessoa a considerar o nosso país como o maior do mundo. Tal facto é digno de uma entrada directa no livro do Guinness”. Foram estas as palavras que me ecoaram no cérebro em meados do mês passado. Estava eu colado ao computador e com a televisão ligada, quando me deparo com mais uma notícia de qualidade e valor noticioso inegáveis – “Portugal tem o maior assador de castanhas do mundo”. Como não poderia deixar de ser, prosperou em mim um sentimento de patriotismo e orgulho que nunca antes havia sentido. O meu corpo sorriu e senti-me pertencente ao povo mais culto e inteligente do planeta. Afinal, construímos o “maior assador de castanhas do mundo que pesa, nada mais, nada menos, que 650 kg!!!”.

Mas o nosso peso na inteligência guinnessiana não fica por aqui. O mesmo povo que deu “novos mundos ao mundo”, que partiu em busca do desconhecido, que atravessou mares e oceanos, desertos e fronteiras, que lutou bravamente contra o Adamastor, que defendeu até à morte as cinco chagas de Cristo que trazia ao peito, volta hoje a ser um dos mais fortes e temidos países do mundo!

Súbditos, ajoelhem-se perante a nossa grandiosidade messiânica! Nós detemos em nosso poder a mesa mais comprida do mundo! É verdade, mais de 15 mil pessoas na Ponte Vasco da Gama, a maior da Europa, sentaram-se a uma mesa de 5.050 metros de comprimento para saborear uma magnífica feijoada – também ela a maior do mundo. Diz-se que nesse dia – 22 de Março de 1998 – apesar de a ponte estar fechada ao trânsito, foram atingidas elevadas velocidades e variados rebentamentos.

Como nós não gostamos de ficar atrás de ninguém, sete meses depois, nos dias 22, 23 e 24 de Outubro, uma indivíduo pôs mãos à obra e preparou a maior refeição do mundo sem ajuda! Que grande feito! Foram 50 horas e 30 minutos de preparação de um almoço para 1.081 pessoas. Sobrou uma dose, por isso é que aquele 1 surgiu ali no final.

Continuando na área que mais nos apraz, muito por culpa de génios da cozinha como o Chef Silva, Carlos Capote ou Filipa Vá Com Deus, de realçar que o nosso espólio conta com os maiores torresmos da Península Ibérica, o maior bolo-rei do mundo, o maior magusto do mundo e a maior sopa do mundo – um tradicional gaspacho alentejano preparado em Cercal do Alentejo. Para acompanhar, nada melhor que beber do maior copo de vinho do mundo. Também Viseu contribui para a nossa vitrina de recordes, tendo confeccionado o maior pão com chouriço do mundo, com 970 metros!

O tamanho do chouriço foi, neste caso, um factor de alegria para todos. No entanto, muitos não se controlam e o caso toma outros contornos. Que o diga um bode, detentor dos maiores chifres do mundo! São 1,09 metros de galhos na cabeça. Não deve ser fácil… Os outros animais emocionaram-se com a situação e convocaram manifestações, entre elas, uma largada de touros que durou 25 horas seguidas, em Samora Correia.

Como estes protestos de animais podem não parecer muito reais – mas que as há, há! e não são poucas – nada melhor do que proporcionar ao mais comum dos mortais uma viagem pelo mundo da magia. Foi isso que fez Luís de Matos, ensinando a 52 mil pessoas um método para fazer desaparecer 52.001 lenços, no dia 16 de Novembro de 2003 no Estádio do Dragão. Este honroso título tem o nome de “mais não-mágicos ensinados a fazer um truque num único local”. Que bonito! Parece uma frase do Saramago… O Estádio dos tripeiros, mais tarde, foi o local escolhido para atingir mais um estrondoso recorde e emocionante (perdoem-me as lágrimas) número de magia. Foi lançado o maior número de aviões de papel em simultâneo, no mesmo local.

Aproveitando a onda de fantasia, falemos do Benfica. Em 2006, o maior clube português foi considerado como o maior clube do mundo, após ter atingido o patamar de 160 mil sócios. Mas o desporto não se remete apenas ao futebol e, no hóquei, possuímos o jogador mais velho do mundo, com 71 anos, quase tantos quantos aqueles que separam o Benfica de um título.

Em 1999, Portugal uniu forças e construiu o maior logótipo humano do mundo (34.309 pessoas no dia 24 de Julho de 1999, no Estádio Nacional, para o logótipo da candidatura ao Euro 2004).

No entanto, quando falamos de desporto e recordes, não podemos omitir o nome de Gualdino Guerreiro. Duas vezes citado no “Guinness”, em 2002 e 2003, manteve uma bola de golfe suspensa num taco “sandwedge” durante uma hora, 19 minutos e 28 segundos em Pembrokeshire (Reino Unido) e em dois tacos, no mesmo local, durante 59 minutos e 58 segundos.

Que precisão entre bolas e tacos. Do mesmo se podem gabar os noivos que participaram na cerimónia que contou com o maior número de casamentos do mundo. As noivas, ou pelo menos uma delas, também se pode mostrar satisfeita visto que recebeu o maior bouquet de noiva do mundo. Eram rosas, senhor. O maior ramo de rosas com 518 flores, com 28,4 kg, obra de um florista português, pois claro! Resta saber quem entregou este ramo e a quem. Suspeita-se de alguém que tenha assistido ao maior desfile de biquini do mundo, na Figueira da Foz. Mais de 2.000 mulheres em biquini, no ano de 2004, é de colocar os olhos em bico.

Em bico ficou o maior canivete do mundo, obra portuguesa. Não se sabe se ajudou a construir a maior guitarra acústica do mundo ou a maior manta de retalhos do mundo, também obras genuinamente nacionais.

Contudo, podemos sempre guardar a maior colecção de souvenirs reais relacionados com a princesa Diana de Gales, propriedade de um português.

Também lá fora damos cartas. Que o diga José Melo, empresário que possui o mais alto monumento autóctone canadiano do mundo, o “Inukshuk”.

Por falar em estrangeiro e em aborígenes, não posso deixar de referir a ilha da Madeira, actualmente (e até que a morte os separe) governada por Alberto João Jardim. Foi lá, na passagem de ano de 2006 para 2007, que se realizou o maior espectáculo do mundo de fogo de artifício.

Em época natalícia, não podemos ficar para trás no que respeita a: (três opções) 1- ajuda aos mais desfavorecidos; 2- criação de boas condições de saúde; 3- bater recordes do Guinness. A resposta é… a terceira!!! Não só somos proprietários da maior árvore de Natal do mundo, como também temos em nosso poder (ah ah ah, sorriso maléfico!!!) a maior árvore artificial da Europa. Construímos um Pai Natal de 14 metros em Torres Vedras, levámos 14.100 pessoas a participar num desfile de Pais-Natal no Porto, e ainda enviámos 350 mil cartas para o Pai Natal na Lapónia!

Como a Lapónia fica tão longe quanto o nosso sublime passado, poucas hipóteses temos de receber alguma prenda. No entanto, e recordando alguns recordes históricos, podemos orgulhar-nos de fazermos parte do tratado mais antigo do mundo, o Tratado da Aliança Luso-Britânica, assinado em Londres a 16 de Junho de 1373 e ainda em vigor. D. Afonso Henriques é detentor do reinado mais longo da Europa e o príncipe da Coroa Luis Filipe (D. Luís II), dono do reinado mais curto, que durou apenas 20 minutos, em 1908.

Todos estes grandiosos feitos – e muitos outros que não consegui nomear – têm realçado, ao longo dos anos, as melhores qualidades do povo português. Bolos, castanhas, aviões de papel, árvores de Natal... Tudo isto dava um filme. Até podia ser realizado pelo Manoel de Oliveira, o realizador mais velho do mundo no activo, com 99 anos.

Gostaria de terminar este artigo de opinião com uma notícia de última hora! Preparem os confetti, segurem nas garrafas de Champanhe, rufem os tambores… Esta é “A Crónica Mais Longa Sobre Recordes Portugueses no Livro do Guinness”. Os meus sinceros parabéns a mim!

André Pereira

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Soubesse eu


Soubesse eu este estado
Que me provoca o que minto
Não te traria onde trago
Nem sentiria o que sinto.

Soubesses o que me fazes
Pena pensar que tu mentes
Não me trarias onde trazes
Nem sentirias o que sentes.


Letras: André Pereira
Fotografia: Berthault-Jacquier

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Em cada letra

Em cada letra te escrevo
Em cada sonho te guardo
Em cada partida te levo
Em cada regresso te trago.

Em cada boca te grito
Em cada silêncio te calo
Em cada boneco te imito
Em cada pessoa te falo.

Em cada alimento te provo
Em cada segundo te conto
Em cada pedaço te inovo
Em cada ruela te encontro.

Em cada promessa te beijo
Em cada braço me cais
Em cada ausência te vejo

Em cada presença te vais.

Letras: André Pereira
Fotografia: Nuno Abreu

domingo, 21 de outubro de 2007

Cair...

São catadupas de palavras que me assaltam a cabeça. Sinto tudo de todas as formas depressa. Acorro a todos os alarmes de urgência, a todos os meus esgares de impaciência. Tudo por pensar. Por querer pensar também. Porque só eu desejo o que não quero, só eu sinto o que não tenho. Eloquente traste que me atravessa a garganta. Rir? Ria quem canta, que a minha história não se escreve em folhas pautadas no caminho. Vai-se fazendo em noites passadas sozinho.

André Pereira

terça-feira, 2 de outubro de 2007

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Ainda com o terço na mão, Simão arrasta-se lentamente pelo corredor vazio do sector C. Todo o seu corpo tende a inclinar-se vertiginosamente para o polido chão branco que pisa. Só os seus olhos lutam por uma sobrevivência agastada por brincadeiras infantis demoradas na eternidade. A sua pele já se confunde com o cinzento pálido das suas roupas, o cabelo despenteado assemelha-se ao andarilho da sua vizinha do quarto número cinco.

André Pereira
Imagem: Direitos Reservados

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Hoje é o primeiro dia...

Começou mais um ano lectivo e, como não poderia deixar de ser, Coimbra pinta as suas ruas de negro. São capas, senhor, que envolvem os nómadas moradores da cidade. A animação e boémia voltam ao local que melhor conhece este espírito. Voltam por voltas que a vida dá. Vêm, não sossegam e voam pelas asas de um qualquer caloiro intimidado com o amor que se lhe espeta no coração. Sim, amor… Pois só esta cidade provoca este sentimento em qualquer corpo que envergue o seu traje. “Chega a ter saudades dela quem nunca nela viveu”. Os outros, esses, não sentem outra coisa…

Fotografia: António Pinto