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quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A minha noite não usa baton - VI

Olho para o lado e vejo cinco criaturas verdes a saltarem no meu sofá. Não têm mais de 60 centímetros, as orelhas largas que estreitam no topo e dois pés achatados em forma de raquete de ténis. No nariz tinham um funil e em cada orelha um crocodilo bebé pendurado. Ao ombro, cada um tinha um papagaio que, por sua vez, tinha ao ombro um ser humano (mas muito muito pequenino). Olharam-me nos olhos, avançaram com os dedos compridos e pegajosos sobre o meu queixo e franziram o nariz. Naaaaa… não é este!, disse o crocodilo que estava pendurado na orelha esquerda daquele que parecia ser o chefe. Pelo menos era o que dizia o autocolante que tinha colado na testa, “Eu sou o chefe”. De se ter chegado tão perto na busca de informação, senti o hálito do crocodilo… Cheirava a sardinha assada e pernas de ser humano. Não me perguntem qual é o cheiro das pernas de um ser humano, mas depois de ter visto um vestígio de pé entre os dentes do crocodilo, o meu nariz criou todos os cheiros possíveis.

Imagem: Hugo Castro

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Não tenho

Fartei-me de cheirar perfumes. Todos os dias entrava no Centro Comercial e vinha uma senhora bem arranjada com uns papéis brancos na mão. “É o nosso novo perfume, cheira a sumo de malmequer”. Respondi-lhe amavelmente que não podia cheirar porque me tinha esquecido do nariz em casa, na gaveta das camisolas de gola alta. Andei mais uns metros e, novamente, uma senhora muito bem arranjada saltou do balcão e propôs-me um cartão de crédito livre de prestações. Falou-me do clima de crise que vivemos e na importância de prepararmos o nosso futuro. Uma vez mais, recusei dizendo que nunca trazia o futuro comigo, só quando ia de férias. Sorriu-me e deu-me um panfleto. Aceitei, dobrei-o em quatro e meti no caixote do lixo mais próximo. Junto deste, fui interpelado por um senhor não tão agradável a nível de aparência. Tinha barba, um cigarro no canto dos lábios e um maço de revistas apoiado no braço esquerdo. “Uma revista por um euro. É para ajudar os toxicodependentes de Portugal. Se quiser passo recibo.” “Obrigado, mas não estou interessado.”, respondi. “Que falta de educação, olhe-me nos olhos e diga-me isso outra vez! Dê-me uma moeda pela sua vida e pela minha”, afirmou com ar ameaçador. Sorri, olhei-o nos olhos e disse: “Desculpe, mas não tenho vida, vou agora buscá-la ao infantário.”

quinta-feira, 24 de julho de 2008

A minha noite não usa baton - V

O que se estava ali a passar? Num segundo, o jornalista ficou branco como a cal, o seu tronco entrou em soluços e os olhos começaram a pestanejar nervosamente. O entrevistado de imediato se prontificou a ajudá-lo, estendeu a mão e agarrou-lhe o antebraço. Porém, o jornalista, estranhamente, dizia que estava bem e que não entendia o porquê de tanto alarido no estúdio. Eu estou bem, muito bem até. Podem só pedir aos duendes que não saltem em cima da mesa? Dão cabo disto tudo… Perante tal afirmação, o burburinho na sala cresceu e a preocupação com o jornalista seguiu o mesmo rumo, drasticamente. As luzes caem ao chão, ouvem-se vidros a partir, a mesa parte-se ao meio, as cadeiras saltam de um lado para o outro, como se fossem pequenas bolas saltitonas na mão de deus. Os câmaras assustam-se e deixam a imagem de lado, em frio contacto com o chão. Ao canto do ecrã, um vulto negro arrasta um outro de cor encarnada. Esta última arrasta-se na imagem que se apresenta aos meus olhos. Chego mais de perto para tentar ver o que se esconde para lá da cor, mas logo salto para trás, caio e fico com as costas coladas no chão. Como se tivesse sido empurrado por um martelo pneumático. Morro de susto e de surpresa.

Texto: André Pereira
Imagem: Gustavo Kruel

domingo, 13 de julho de 2008

A minha noite não usa baton - IV


A imagem era nítida, o jornalista estava a entrar em estado de choque. Pelo menos a sua mão esquerda. Os tremores agudizavam-se com o passar dos segundos, os suores precipitavam-se na mesa e… e… e ninguém reparava! O assunto que estava a ser debatido, reconheço, era de extrema importância para que pudesse ser interrompido de forma a socorrer alguém que se encontrava num claro estado de choque e nervosismo. “O nosso treinador é o regressado D. Sebastião. Ele fez com que atingíssemos patamares elevadíssimos no futebol mundial, para não dizer europeu”, vomitava o especialista, enquanto juntava as mãos em forma de triângulo, tocando com as pontas dos dedos umas nas outras, um pouco ao estilo de Pedro Abrunhosa, mas numa versão intelectual.

Texto: André Pereira
Imagem: DR

sexta-feira, 4 de julho de 2008

A minha noite não usa baton - III

“... assim está Bagdade, gritos e rajadas de metralhadora de um lado, rosas e cartas de amor do outro.” Rosas e cartas de amor? Que maneira mais lamechas de terminar uma reportagem, ainda para mais sobre guerra. Se ao menos aquela mão parasse de escrevinhar aquela folha, eu deixaria de ouvir estas palermices. Mas não. O movimento mecânico continuava e eu sem saber a razão. Agora estava um convidado em estúdio. Um especialista numa matéria que não tem mais que especialistas: futebol. Neste caso, o tema em debate era a prestação da Selecção Nacional no Euro 2008. Finalmente um assunto de Estado, que interessa a todas as pessoas dotadas de inteligência no nosso país. São poucas, bem o sei, mas as que existem sabem quantas namoradas tem Cristiano Ronaldo, vêem com sentido crítico (mas bastante sapiente) os treinos do Scolari e põem bandeiras nas janelas, nas portas e até na casota do cão. Porém, para lá de toda esta diarreia cultural, o meu olhar centrava-se da tal folha A4 (sim, consegui ver que era A4, devido ao ângulo em que assentava o plano actual). Agora, a caneta parecia não escrever e o jornalista mostrava sinais de extrema inquietude. O polegar carregava freneticamente no topo da caneta, num claro sinal de nervosismo, e a o suor escorria pelos dedos do pivot.

Texto:
André Pereira
Imagem: DR

terça-feira, 1 de julho de 2008

A minha noite não usa baton - II

Franzi os olhos, tentando ver por entre os muitos quadradinhos que compõem a imagem, mas nada. Saltei do sofá e inclinei-me para a frente, sentia o magnetismo a coçar-me a ponta do nariz. Virei a cabeça para a direita, virei para a esquerda, levantei-me e espreitei de cima, como quando estamos na varanda de um oitavo andar e queremos olhar para o passeio. Com calma e muita atenção. Tentava assim espreitar o que estava escrito no papel do apresentador. Em vão, pois está claro. E eu tinha consciência disso. Mas a urgência em saber era tal que nem o INEM a conseguiria resolver. Nem eu, e estava ali tão perto. “Mais doze soldados norte-americanos feridos…” Está bem, o que me interessa isso? Mostra-me o que escreves. Desenhas letras, caras, banda desenhada, flores, bonecos? O quê? Diz-me, mostra-me. Veio a peça televisiva e o ecrã foi invadido totalmente por imagens de tanques de guerra, crianças nuas deitadas nas camas de um hospital velho com buracos nas paredes e caixões com a bandeira norte-americana estendida. Foram dois minutos de uma sucessão imagética acompanhada pela voz melodiosa e timbrada do jornalista.

Texto: André Pereira
Imagem: DR

sexta-feira, 27 de junho de 2008

A minha noite não usa baton - I

Passava pouco mais das oito da noite. As canções que tocavam na aparelhagem eram tão banais que já nem se ouviam. Desliguei. A janela estava aberta. As cortinas balançavam ao sabor do vento. Lá fora, o cão ladrava perante todo o vento que lhe soprava no focinho. E ali estava eu, deitado no sofá, a exercitar o polegar no comando da televisão. Desenhos animados, futebol, um documentário da vida dos gorilas em África, um leilão de uma obra de arte... A televisão está mesmo a atravessar um período de grande qualidade de programação, pensei em voz baixa. Mais um clique. Um indivíduo de fato e gravata, pose hirta e olhar sério balbuciava uma série de notícias sobre a guerra do Iraque. Parei. Diminuí o volume e fiquei perplexo a olhar para a televisão. A imagem era absolutamente desinteressante, no entanto, algo me prendeu a atenção. A caneta que o pivot tinha na mão esquerda escrevinhava qualquer coisa num papel deitado na mesa. Toda a postura firme e cuidada do apresentador contrastava com a azáfama desconcertada que existia naquele pedaço de plástico.

Texto: André Pereira
Imagem: DR