Um título lamechas merece uma crónica lamechas. E prometo não desiludir, já que o tema é o amor e, como todos bem sabemos, o amor é sempre lamechas. Um coração esgravatado numa árvore, outro coração escrito na mesa da sala de aula, outro ainda desenhado na areia... Cada um com o seu feitio, o seu humor, a sua forma de estar. Sentado ao divã, está hoje o que tem areia nos pés (e alguma na cabeça), o amor de Verão.Antes de nos apaixonarmos por isto, é melhor esclarecer que o amor de Verão não leva a lado nenhum. É exactamente igual aos outros. A vantagem é que este tem piada. Não se mata, não se morre, não se cai num caldeirão nem se é expulso do Paraíso. O amor de Verão dói. Mas passa. Dói agora. Amanhã não existe. Claro que fica gravado (a cores), mas bem arrumadinho.
No resto do ano, o amor é regrado, metódico. "Jantamos amanhã?", "Amanhã não posso, tenho reunião. Depois.", "Quando?", "Quando te der mais jeito.", "Não me dá jeito, eu trabalho.", "Eu também.", "Raios!". Este amor não dá jeito nenhum. É um amor que faz contas, que cumpre horários, que pensa. Um amor que apenas se faz no café, na fila para o autocarro ou no escritório é um amor triste.
Já o amor de Verão calça chinelos e queima os sapatos, veste t-shirts e rasga os fatos e as gravatas. Nem sequer usa maquilhagem. Pega na guitarra partida e começa a tocar os Jardins Proibidos. Desafinado. Mas é mesmo assim, porque lá no peito também bate um coração. O amor de Verão não dá rosas nem caixinhas de chocolate. Apanha escaldões e fica com a marca da pulseira que a miúda nos deu. Protector? Para quê? O amor de Verão não usa protector. Nem quer. Aliás, o amor de Verão não é vermelho, é ultra-violeta.
Foto: DR
