quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A Casa da Minha Avó

Estou um bocadinho farto das lutas da Leopoldina, das danças da Popota, da música do Pingo Doce, dos Pais Natal nas varandas, das palhas do Menino Jesus, das mensagens de telemóvel, do Natal dos Hospitais, do Bolo Rei, do Cavaco Silva, da Manuela Ferreira Leite e de tudo o que esteja sempre a piscar e me provoque ataques de epilepsia.

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Não é esse o significado que dou ao Natal. O Natal, acima de qualquer religião ou playstation, significa Família. Portanto, num rasgo de lamechice, mas também de profundo sentimento e saudade, decidi partilhar convosco um texto que fiz sobre a Casa da Avó.

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A CASA DA MINHA AVÓ

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Tem quatro paredes, um telhado e mil recordações. Lá fora, um caminho de terra segue para a mata que toca com as pontas do verde nos muros da casa. De um lado, um terreno de cultivo com árvores de fruto e legumes por nascer. Do outro lado, um monte de areia que sobe pelo muro do galinheiro. Um portão vermelho de ferro, um canteiro de flores e vinte e oito janelinhas ao longo da parede de entrada. Cá dentro, duas bicicletas encostam-se à parede da Casa dos Sacos - um parque de diversões de velharias: balanças, caixotes, baldes, cadeiras, mesas, vasos, candeeiros e sacos, muitos sacos. O pátio de pedra desce ligeiramente em direcção ao poço de água - sempre esteve tapado, afinal, de onde poderia eu roubar ameixas daquela árvore? Ao lado do poço, uma porta com uma carpintaria lá dentro e ainda uma garrafeira dezassete degraus abaixo. O chão está frio - sempre esteve frio - e a corda que pendura a roupa ainda é a mesma. A roupa é que não. A minha avó agora apenas existe nas peças de dominó escondidas no armário - na terceira prateleira do lado esquerdo, ao fundo, debaixo dos casacos e atrás das camisolas de lã -, nos blocos de papel debaixo do telefone, nas bolachas Maria com manteiga, na ponta do sofá junto à lareira, nas fotografias penduradas ao lado da porta do quarto de hóspedes. E, claro, na máquina de costura junto à televisão. Ao fundo do corredor, a casa de banho. Pequenina. A mesma madeira do chão leva a um quarto, à cozinha e a uma sala utilizada apenas em dias de festa. Tudo continua na mesma. As coisas não mudaram de sítio. Nem as recordações. Tem um telhado e quatro paredes. É a casa da minha avó.

4 comentários:

Tia LA disse...

A casa da minha mãe, para mim.
Como ela gostava de vos ver lá a brincar...
Não saltem, tenham cuidado...
vejam lá se se magoam...
Oh, Zé [o avô], deixa lá os meninos...
Como ela gostava de lá ter os netos e os filhos todos debaixo das suas asas. Como ela pedia que nos mantivéssemos sempre unidos.
E, quando eu, o teu pai e os tios éramos muuuiiito mais novos, sentados à braseira, a jogar às cartas com o avô e ela a fritar as filhós para as comermos quentinhas!
Isso sim, o verdadeiro espírito de Natal!...
Que saudades!
Obrigada por te lembrares da minha mãe, tua avó.

André Pereira disse...

Que saudades! :)

Ana disse...

a casa da nossa avó :')

André Pereira disse...

É tão bom recordarmos os bons momentos que lá vivemos. Pode ser doloroso, e caímos sempre na tentação de desejar que o tempo volte atrás, mas recordar acalma e dá a sensação de vida vivida.